O que resta das campanhas napoleónicas em Portugal? Nada, a considerar que essa época longínqua está perfeitamente afastada das preocupações actuais. Batalhas, mortes, uma ocupação militar com todas as misérias subsequentes... foi o caso, igualmente em Espanha, na Áustria, na Itália, na Alemanha... por onde Napoleão conduziu o seu exército.
Então, por que razão, cada dia, aparece um novo livro sobre Ele, a sua obra, os seus sequazes? Por que será considerado, em todo o mundo, como um dos maiores chefes de guerra de todos os tempos e um dos homens que mais contribuiu para a modernidade? Pois, observando melhor – diferença primordial em relação aos conflitos actuais – essas guerras não levaram aos países conquistados só a guerra; introduziram os valores da Revolução Francesa, ansiados por elites locais admiradoras do século das Luzes, ideais que resumimos nas divisas do nosso país: liberdade, igualdade, fraternidade.
Em Portugal, a derrota militar francesa precedeu uma guerra civil que opôs os construtores de um novo mundo aos detentores de um mundo antigo, marcando assim o ponto de partida do Portugal moderno. As guerras napoleónicas constituem uma viragem na história de todos os países europeus.
A história não se limita a um paradoxo – e é isso que a torna apaixonante – foi pela guerra que esses novos valores, para tempos de paz, foram semeados na Europa inteira. Foi nessas guerras que germinaram e foi na paz recuperada, a partir de meados do século XIX, que os frutos nasceram e não cessaram de se desenvolver até hoje.
Abstenhamo-nos de deslocar os antigos conflitos do seu contexto, de os julgar com os conceitos políticos e morais contemporâneos. Tal seria perverter as fontes da memória.
Bravo a Tereza Caillaux de Almeida por trabalhar sobre os vestígios que esses caprichos da história deixaram na memória, em Portugal.
Mensagem do Príncipe Charles Napoléon
Paris, 12 de Março de 2010
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