Neste tempo apressado, no qual a opinião vale mais
do que a convicção e o rigor surge, tantas vezes, como obstáculo à celeridade própria
dos novos acontecimentos, temas há que tornam particularmente apelativos, solicitando dos
cidadãos um espírito de bancada naturalmente pouco exigente no saber e facilmente
legitimado para julgar.
Entre estes fenómenos da criminalidade e da violência, ligados, nem sempre de forma
suficientemente crítica, a sentimentos como os de segurança individual ou de vingança
pessoal constituem um campo privilegiado de observação que, por isso, torna urgente a
informação, seja ela trabalhada no campo científico e, assim, mais própria de
especialistas, seja-o nos domínios da comunicação social em geral, ou ainda, no campo
da literatura, pela via do romance, do conto, da crónica ou da antologia.
Na verdade, perante o crime dos nossos dias, e na linha de reflexão de Garapon e Salas,
não nos podemos quedar fora do mal, condenando os que condenam. Mas não podemos também,
com a mesma seriedade fazer cair a responsabilidade total sobre os que cometem os crimes.
Há, pois, que alargar o conhecimento, para permitir o aprofundamento da consciência
crítica que hoje não pode deixar de exigir-se ao cidadão moderno.
E, nesse caminho vem passando, há muito, Artur Varatojo,
construindo uma obra, chegando a todos através de um sentido notável de comunicação e
de uma aguda sensibilidade para a definição dos limites dentro dos quais se questionam o
rigor e a acessibilidade da informação.Assim foi, mais recentemente, com Os Grandes Criminosos Portugueses. Assim
volta a ser agora com Crime com Elas!
Numa escolha acertada de algumas criminosas célebres, desenvolve uma
linguagem descritiva transformando os textos em narrativas de serão, bem próprias do
tema comum que as servem, revestindo a informação de uma tonalidade cativante que prende
o leitor sem, todavia, lhe retirar campo de avaliação própria.
Por outro lado, ao tratar apenas, desta feita, mulheres criminosas, o autor desmitifica o
estereótipo do criminoso violento, homicida por excelência de extracção social
inferior e despido de sensibilidade, substituindo-o aqui, por figuras, algumas delas
gentis, de projecção diversa em estratos sociais bem diferentes, e portadores de uma
imaginação prodigiosa capaz, as mais das vezes, de revestir insuspeitados atributos
estéticos, a mais horrível das perversidades.
A própria escolha do título da obra não foge ao sentido da insinuação que,
originariamente mais próprio das ginjas, se ajusta aqui ao sabor de Marie Madeleine, de
Catarine Voisin, de Guilhermina Adelaide ou de Florence Chandler e se casa, uma vez mais,
com a capacidade de humor com que Artur Varatojo tem adornado a sua intervenção nos
domínios da criminalidade.
Por estas páginas não passa, pois, apenas, o horrível, ainda assim tantas vezes belo,
de um mundo no qual a negação absoluta de valores humanos se transforma em projecto de
realização pessoal, mas nelas fica também a marca de um homem culto e sensível em cuja
companhia vale a pena gastar um pouco do nosso tempo de leitura.
A. Laborinho Lúcio
Ex-Ministro da Justiça
Magistrado do Ministério Público no S.T.J.
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